segunda-feira, 30 de abril de 2012

*Na casca de noz


Joguei fora ela, eu, o mundo, os momentos, a hora, o chão, eles, e tudo mais que me pertencia, essa viajem tinha de ser vazia pra ter alguma coisa.
O vôo da águia, do falcão. O mergulho do tubarão, da baleia, do peixe. A velocidade do leão, do tigre e o descanso. A umidade da mata fechada, e eus que ali  caçam, morrem, correm e sentem. Um mergulho de ponta no meio do marzão após um grande vôo a 15 metros de altura da mar, adentrando a solidão e a pureza da água em meio a tantos eus. O calor da savana africana, sua monotonia , alastrando sobre a realidade sem destino, sem rumo e fatal. A divindade do pico das montanhas, gélidas, com seus ventos que quando aspirados, lembram-nos da dádiva do ser cada momento, cada gesto, cada sinal, cada situação daqui. Apesar de oculto, vago e embaçado que encara constantemente, o deserto era perfeito com seu torpor ao esforço da vida que luta para ficar. A distância vazia e fria de Plutão. O amor estonteante da Lua e os paixões dela, que fazem a Terra girar para muitos, mesmo sem saberem. O calor sólido e eufórico do Sol, no ombro esquerdo, seu fogo amante, que queima em cada um, alma. A presença fiel e vultuosa de Marte e Vênus contrastando ao meu lado. Ansiedade efêmera em Mercúrio. E a distância de outras estrelas e celestes por ai, presentes e ideais como sonhos.
            Nesse momento eu era tudo e não era nada. Na cama de um quarto escuro no canto do mundo eu morri e nasci. Senti o barco alcançar alto-mar, seguir voo junto ao vento levante que esvoaça toda a minha vida sem saber. Vi vários portos para atracar, mas o verdadeiro destino estava no horizonte do meu mar, fechei os olhos.
            Meu nome era Universo, e ele flava comigo. Sabia o que queria, mas tinha de pedir mesmo assim, não sei o porquê, só sei que foi assim. Não daria nada, regeria pra que pudesse maestrar o que queria fazer, alcançar. Disse onde era o Norte, o Sul, a terra, o céu e o mar.Uma voz grave, ecoante e múltipla ouvia, pairava no ar. E de repente eu era o vôo do pássaro, o pássaro, o mergulho do peixe, o peixe, a velocidades dos corredores, os corredores e a preguiça que os abatia. Era as montanhas, os mares, as matas, as planícies, os campos, os desertos. Era o espaço, a Lua, o Sol, os planetas, os sonhos. O vento, o frio, o calor, o mar, o planeta. E todos eles eram Eu.
Tudo era tudo, nada era nada, tudo era nada e nada era tudo.
Senti a hora conectando-se a mim. Me explicando que o momento era aquele, ou , do contrário, seria perdida, seria em vão.
O ar me inflou os pulmões, preencheu meu eu e me fez lembra onde estava. Sabia o dever. Não saber. Deixar ser, levando até a vida. Abri os olhos e fui escrever para poder dormir em paz.

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