“Tenho estado desconcertado, muito pensativo. Como alguém
quem não consegue viver efetivamente e tem de produzir um relatório mental
sobre exatamente tudo, qualquer sensação ou emoção, como que uma análise
científico-poética a lazer artístico. Ah, esse veneno!(de Rubem Fonseca). O
veneno dos venenos! Como alguém que formula pensamentos concretos, reflexos e
desenvolvidos dentro de si, mas não consegue lhes fazer em versos e palavras ao
seu gosto. Tenho estado chato para tudo, sem paciência com a vida, como se
aquilo que está para acontecer já fosse previsivelmente entediante, e, por
isso, tenho me refugiado em livros e histórias adjacentes aos meus pensamentos.
Mas,
notei algo diferente hoje. Notei que apesar de minha chatice impregnada nos
meus confins, como um cheiro forte de pimenta lhe ardendo os olhos e narinas,
estou sendo solidário ás pessoas com quem simpatizo, e seco, talvez até
ríspido, com os que não vou com a cara ou tenho algo contra de fato. Como que para
proteger algo dentro de mim, uma criança que ri, me agradando, para os atos
contemporaneamente heróicos, pelo menos para mim, que faço com essas pessoas a
minha volta. Ou , que talvez seja mais estranho ainda, estou a fazer com essas
tais pessoas como que para contar para meus filhos no futuro, como meu pai
fazia e faz comigo, como que para lhe mostrar os caminhos que segui e que acho
certos por algum motivo, ou até para ele poder discordar e eu aceitá-lo como
ele será. Odeio dizer isso, mas preconceitos e certos padrões de pensamento
antiquados das famílias, me salvaram de ser o que não sou e não queria ser,
apesar de ter um potencial considerável para tais, posso dizer até, que tenha
medo desses outros possíveis ‘’eus’’.
Tenho
percebido também que talvez não esteja me tornando quem eu quero ser realmente,
e pior ainda: percebi que não sei mais ao certo quem eu quero ser, e ainda: que
não sei se quero saber quem eu desejo me tornar. Mas isso talvez faça parte das
minhas histórias paternas futuras. Aliás, cheguei a uma certa conclusão no
banho: talvez, eu tenha desenvolvido uma necessidade de me tornar pai (não que
isso me faça ser melhor que o outros), como que para ter alguém realmente a
quem proteger e ensinar e ter o prazer de poder ver aquela vida feliz e
realizada, e sentir-me feliz por isso, como espero que meu pai se sinta por
mim, apesar de talvez não ser ou estar me tornando quem ele desejava que fosse.
Notei que desenvolvi essa estranha e natural vontade de representar essa figura
paterna presente e forte que vejo. Como na natureza, onde a criatura nasce, se
desenvolve, se reproduz, passando seu gene, sua vida, seus conceitos e
tradições para seus descendentes para perpetuar-se na roda viva do tempo, onde
avô criou o pai, que criou o filho que tornou-se avô e pai criando e protegendo
filhos e netos, e que morreu com um leve sorriso no rosto de paz e realização,
como alguém que descobriu seu dever e sentido na Terra. E aquele que não fez
isso, talvez não se encaixe no ‘’natural’’, mas não está errado, ao não ser que
tenho sido vil e mesquinho para com a vida próxima, simplesmente encontrou em outros
meios seus filhos, onde se fez pai e avô’’
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