domingo, 29 de abril de 2012

*O chato


“Tenho estado desconcertado, muito pensativo. Como alguém quem não consegue viver efetivamente e tem de produzir um relatório mental sobre exatamente tudo, qualquer sensação ou emoção, como que uma análise científico-poética a lazer artístico. Ah, esse veneno!(de Rubem Fonseca). O veneno dos venenos! Como alguém que formula pensamentos concretos, reflexos e desenvolvidos dentro de si, mas não consegue lhes fazer em versos e palavras ao seu gosto. Tenho estado chato para tudo, sem paciência com a vida, como se aquilo que está para acontecer já fosse previsivelmente entediante, e, por isso, tenho me refugiado em livros e histórias adjacentes aos meus pensamentos.
                Mas, notei algo diferente hoje. Notei que apesar de minha chatice impregnada nos meus confins, como um cheiro forte de pimenta lhe ardendo os olhos e narinas, estou sendo solidário ás pessoas com quem simpatizo, e seco, talvez até ríspido, com os que não vou com a cara ou tenho algo contra de fato. Como que para proteger algo dentro de mim, uma criança que ri, me agradando, para os atos contemporaneamente heróicos, pelo menos para mim, que faço com essas pessoas a minha volta. Ou , que talvez seja mais estranho ainda, estou a fazer com essas tais pessoas como que para contar para meus filhos no futuro, como meu pai fazia e faz comigo, como que para lhe mostrar os caminhos que segui e que acho certos por algum motivo, ou até para ele poder discordar e eu aceitá-lo como ele será. Odeio dizer isso, mas preconceitos e certos padrões de pensamento antiquados das famílias, me salvaram de ser o que não sou e não queria ser, apesar de ter um potencial considerável para tais, posso dizer até, que tenha medo desses outros possíveis ‘’eus’’.
                Tenho percebido também que talvez não esteja me tornando quem eu quero ser realmente, e pior ainda: percebi que não sei mais ao certo quem eu quero ser, e ainda: que não sei se quero saber quem eu desejo me tornar. Mas isso talvez faça parte das minhas histórias paternas futuras. Aliás, cheguei a uma certa conclusão no banho: talvez, eu tenha desenvolvido uma necessidade de me tornar pai (não que isso me faça ser melhor que o outros), como que para ter alguém realmente a quem proteger e ensinar e ter o prazer de poder ver aquela vida feliz e realizada, e sentir-me feliz por isso, como espero que meu pai se sinta por mim, apesar de talvez não ser ou estar me tornando quem ele desejava que fosse. Notei que desenvolvi essa estranha e natural vontade de representar essa figura paterna presente e forte que vejo. Como na natureza, onde a criatura nasce, se desenvolve, se reproduz, passando seu gene, sua vida, seus conceitos e tradições para seus descendentes para perpetuar-se na roda viva do tempo, onde avô criou o pai, que criou o filho que tornou-se avô e pai criando e protegendo filhos e netos, e que morreu com um leve sorriso no rosto de paz e realização, como alguém que descobriu seu dever e sentido na Terra. E aquele que não fez isso, talvez não se encaixe no ‘’natural’’, mas não está errado, ao não ser que tenho sido vil e mesquinho para com a vida próxima, simplesmente encontrou em outros meios seus filhos, onde se fez pai e avô’’

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